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RUGBY: Os 10 anos do primeiro título da história do Farrapos

Na primeira reportagem da série “Lembranças do nosso esporte”, o NB relembra a primeira conquista do Campeonato Gaúcho de Rugby de 2010, que foi o divisor de águas para a evolução da equipe alviverde na modalidade.

18/09/2020 08:56

Em 2010, o Farrapos dava início a sua hegemonia no rugby gaúcho e inaugurava a sua sala de troféus. No Estádio da PUC, o torcedor, cuja presença massiva enalteceu a primeira decisão da história do Farrapos, observou o alviverde de Bento Gonçalves derrotar a tradicional equipe do Charrua e levantar de forma inédita o título do Campeonato Gaúcho. A conquista foi o início da supremacia do clube de Bento Gonçalves no Estado - Decacampeão invicto - e que o levou a se desenvolver significativamente em âmbito nacional. 

Na primeira fase, invicto, com o melhor ataque e a melhor defesa, o alviverde demonstrava em campo que, após finalizar o estadual na terceira colocação em duas temporadas consecutivas, tinha condições de alcançar o objetivo principal: a final do campeonato. Mas, não era apenas nos confrontos que o Farrapos comprovara o seu mérito. “Fazíamos sete sessões de treino por semana para atingir os objetivos que conseguimos neste ano”, comenta Jonatan Gobatto, o Teco, um dos atletas que esteve em todas as 10 conquistas estaduais do clube. 

Na semifinal da competição, o Farrapos, de forma categórica, deixou para trás o Brummers pelo placar de 55 a 7, classificando-se para a sua primeira final de sua curta trajetória na modalidade. Na decisão, o alviverde enfrentou o seu rival, o Charrua, de Porto Alegre, o clube mais antigo do Estado. Era o duelo entre o mais longevo contra um dos clubes mais jovens do Rio Grande do Sul na disputa pelo título. 

O jogo da primeira fase, no qual o Farrapos havia derrotado o Charrua pelo placar de 6 a 3, já evidenciava o que a decisão poderia proporcionar ao torcedor. A preparação prévia para a final foi intensificada pelo consultor técnico do Farrapos, Pierre Paparemborde, ex-técnico da Seleção Brasileira, o qual, segundo os próprios atletas, foi peça chave para o desenvolvimento das habilidades individuais e, sobretudo, coletivas da equipe alviverde. 

Pierre Paparemborde auxiliou na evolução da equipe dentro das quatro linhas (Foto: João Paulo Mileski)

A dedicação, o suor, o sacrifício e a confiança eram alguns dos elementos presentes nos treinamentos, como relata o ex-atleta Roberto Magnin, o Baby, um dos quatro atletas que esteve no primeiro treino do clube: “Os treinos não tinham dia, horários ou fenômenos da natureza que pudessem atrapalhar nosso foco. Nosso treinador Pierre fez um trabalho incrível. Conseguiu arrancar de cada um o nosso melhor, e nos fez acreditar que era possível”.

O imprevisto

Na semana anterior à final, Pierre comunicou ao grupo que não teria como participar da decisão por conta de um compromisso em São Paulo. Baby explica que a notícia abalou o grupo. “Suas palavras nos faziam ganhar metros no campo. Chegamos em Porto Alegre e realmente o professor não estava lá do nosso lado. Parecia faltar algo, os olhares eram de uma certa dúvida: Seria possível ganharmos o direito de comemorar nosso primeiro título gaúcho?”, comenta. 

No aquecimento, eis que Pierre surge. “Estava lá nosso líder, peça fundamental para fecharmos o quebra-cabeça. Os sorrisos e a alegria entre todos em campo foram instantâneos. Ok, agora tínhamos a certeza que se fizéssemos tudo que tínhamos treinado, aquele dia seria mágico. E foi”, pondera Baby. 

O jogo

A rivalidade aflorava a disputa, tanto a cada scrum como a cada grito na arquibancada, que contou com a expressiva presença do torcedor, tanto da equipe porto-alegrense como do time  alviverde de Bento Gonçalves. Dentro das quatro linhas, não houve injustiças. O Farrapos fez das faltas cometidas pelo adversário a sua arma para pontuar através dos penais. De quatro chutes, Leonardo Scopel acertou três, 9 a 0. 

Apesar do placar apertado, Scopel relata que o Farrapos teve o predomínio do confronto, sobretudo graças à solidez da defesa. “Foi um placar muito apertado, mas um jogo muito tranquilo, pois estávamos com a defesa muito sólida. Não perdemos quase nenhum line-out, nem nosso nem deles, scrum a mesma coisa”, ressalta.

Veja os melhores momentos da final do estadual de 2010

 

(Foto: Luiz Filipe Varella)

A preparação junto com o treinador Pierre foi preponderante para determinados aspectos na partida. “Ele trouxe estruturas básicas e fortaleceu nossa formação de scrum e de maul, que foi uma ferramenta que utilizamos mais nesse jogo”, detalha o ex-atleta e técnico do Farrapos, Carlitos Baldassari.

Empurrado pela energia da torcida, que fez a festa com fogos, bandeiras e canções, o Farrapos garantiu a vitória pelo placar de 9 a 0. A entrega mútua do grupo de atletas foi, enfim, coroada com a conquista inédita do Campeonato Gaúcho de 2010. 


“Foi produto de algo muito desejado pelo grupo de jogadores. Compartilhávamos aquela fome de superação, aquela vontade de querer vencer, e tem jogadores que participaram dessa primeira vitória que ainda estão fazendo parte do clube, e que devem ter essa mesma lembrança da sensação de vitória. Foi o primeiro degrau do clube para o sucesso que é hoje em dia”, ressalta Carlitos. 

“Era uma conexão que ia além e se refletia no campo”, pondera Teco

Teco, juntamente com Diego da Silva, o Bigode, são os únicos atletas do grupo campeão gaúcho de 2010 que seguem na equipe alviverde. O esforço, como descreve o jogador, teve como objetivo elevar de patamar o clube, meta que foi alcançada não só com o título gaúcho como também com a ascensão do Farrapos à elite do rugby brasileiro. “O objetivo era elevar o clube a uma projeção nacional, para poder evoluir as outras partes e formar um estruturado clube de rugby. Em 2010 tivemos êxito e fomos considerados o Clube Revelação pela CBRu”, comenta. 

O título estadual, segundo Teco, serviu para consolidar o árduo trabalho realizado pelo grupo de atletas, que contavam com a união como uma das peças chave para o sucesso. “Foi um ano muito especial no clube, onde tudo se encaixou de uma maneira ímpar. Um grupo de amigos, com os mesmos objetivos e vontade, querendo fazer algo grandioso para si e para a cidade. Não tinha como dar errado. Era uma conexão que ia além e se refletia no campo”, relata. 

Em pé: Mauri, Bigode, Pequeno, Lucão, Fred, Capixaba, Tito, Caveira, Coghetto, Barreto, Baby e Giga. Agachados: Sperotto, Marido, Garbin, Mateus, Edgar, João Paulo, Daltro, Teco, Pierre, Carlitos e Scopel

Sobre sua marca pessoal em ter participado dos 10 títulos gaúchos do Farrapos, Teco salienta que serve como espelho para os jovens atletas e que faz refletir sobre a responsabilidade em defender a hegemonia do clube. 

“É uma marca pessoal muito legal e impactante. Se formos pensar em qualquer esporte é algo difícil de acontecer, mas ao mesmo tempo nos faz perceber que todo título que passa é passado e devemos renovar o ciclo e estar trabalhando para o próximo, com um outro grupo, com outras particularidades. Acredito que eu e Bigode estamos marcando a história do clube, assim como o clube marcou e faz parte da nossa”, explica. 

Bigode, Scopel e Teco estiveram juntos até 2019, quando o Farrapos conquistou o seu nono campeonato estadual. (Foto: Kévin Sganzerla)

Conquista que se confunde com o tamanho da paixão pelo esporte

O uruguaio Carlitos Baldassari, que chegou a atuar pela pela Seleção Uruguaia na Copa do Mundo de 2003, teve papel crucial no desenvolvimento do clube alviverde. De acordo com o ex-treinador do clube, apesar da inexperiência do elenco, a paixão pela modalidade fez diferença para engajar o grupo em prol da conquista. “O clube, naquele momento, tinha uma mistura de jogadores muito inexperientes sim, mas jogadores que gostavam do esporte, que já viviam o rugby de uma forma diferente, e que se doaram 100% para entrar em campo e deixar o melhor possível”, ressalta.

Atualmente, Carlitos é treinador da equipe do Curitiba-PR. Apesar disso, guarda consigo um vínculo significativo com o Farrapos, onde conquistou seu primeiro título no Brasil,  e com o município de Bento Gonçalves. “Tenho a sorte dos meus filhos terem nascido em Bento Gonçalves, então criei um vínculo com a cidade. O rugby te dá amigos, te dá oportunidades de conhecer pessoas e conheci um grupo, que fez parte da geração de 2010, que foi o pontapé inicial do clube, e que se vinculou muito a mim, pois fez parte da minha história”, conclui. 

Foto: João Paulo Mileski

A paixão de Roberto Magnin, o Baby, se confunde ao tamanho da importância e do crescimento que o Farrapos e o rugby alcançou no município e no Estado. De 2008 a 2016, Baby foi um dos principais atletas da equipe alviverde, sendo titular absoluto nas primeiras conquistas do clube. O ex-atleta também teve passagens pela Seleção Brasileira de Rugby. 

O relato que faz ao resumir sua trajetória vestindo a camisa alviverde comprova a contribuição do rugby para a sua vida. “Passei por todas as fases do clube. Desenhei e recortei a mão os números do primeiro uniforme do time. Vi muita gente entrando e saindo, muitos atletas crescendo dentro desta família. Cheguei ao ponto de jogar uma partida do Campeonato Brasileiro no dia do meu casamento. Sai do campo em direção a igreja. Minha esposa conheci através do Rugby”, comenta. 


Baby, Teco, Carlitos e Scopel observam da mesma forma o título gaúcho de 2010: o divisor de águas para a evolução do clube e para a concretização de uma hegemonia no sul do país. “Foi nosso up. Tínhamos um grupo muito bom, muito unido até hoje, todos conversam e se conhecem. A festa foi incrível em Bento e foi incrível em Porto Alegre. Foi um momento que sacrificamos tanto e deu resultado”, conclui Scopel.  

 A matéria sobre o título do Farrapos escrito pelo jornalista João Paulo Mileski, a qual publicada no site “Terceiro Tempo”:

É bem verdade que o esporte, não raras vezes, protagoniza injustiças. Desta vez, não. O troféu de melhor time de rúgbi do Rio Grande do Sul na temporada 2010 está nas mãos daquele que se comportou como tal. Vai para Bento Gonçalves, inaugurar a sala de taças do Farrapos.

Hoje, no estádio da PUC, uma das equipes mais jovens do Estado soube jogar com a inteligência de seus linhas e força dos forwards para derrotar o Charrua por 9 a 0 e sagrar-se campeão gaúcho de rúgbi union. Soube utilizar-se da pontaria quase milimétrica do abertura Leonardo Scopel para fazer das faltas cometidas pelo adversário, sua principal arma. O gigante Charrua, berço de tantos clubes do Estado, teve uma única chance real de try. No restante do jogo, esteve mais preocupado em segurar o ataque adversário do que em penetrar no campo inimigo. Não por estratégia própria, mas porque o jogo lhe impôs isso. Fez-se justiça na partida. Fez-justiça no campeonato. Hoje, 14 de agosto de 2010, as injustiças do esporte passaram longe do estádio da PUC.

Comemoração do título inédito pelas ruas de Bento Gonçalves (Foto: Carine Furlanetto)

Observação:

A primeira conquista do Farrapos foi uma etapa do Campeonato Gaúcho de Rugby Sevens de 2010, em Canela. No entanto, se refere somente a uma das etapas, e não do torneio. 

Fotos: João Paulo Mileski e Carine Furlanetto - Fonte: NB Notícias